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Anna Popplewell (em off): Anteriormente em Descobrindo...

 

Helen (olhando seriamente para avó): Por anos eu fiquei calada fingindo que engolia essa sua história. Mas acho impossível que sequer uma foto dela você tenha, sequer o rosto da minha mãe eu pude ver. Então enquanto não resolver ser sincera comigo a respeito disso, não peça para que não tenha curiosidade de saber mais e aproveitar qualquer meio de fazer isso.

___________________________________________

Helen: É verdade o que eu acabei de ouvir? Você é minha mãe?

Deise: Sim meu amor, eu sou sua mãe.

 

Corta:

 

Helen (interrompendo, alterada): Eu não quero ouvir nada de ninguém... (olha para Rosa)... Fiquem longe de mim, não quero olhar pra cara de vocês, nunca, mais!

___________________________________________

Márcia: Rosa, Rosa... (começa a dar tapinhas no rosto dela)... Vamos lá, acorde! Rosa!

 

A câmera se aproxima do rosto de Rosa que está desacordada.

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Helen (bufando): O que você quer? 

Márcia (com pesar): Sua avó Helen, ela está internada... (pausa)... E é grave.

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Helen: Eu quero saber de tudo. O porquê de você ter me abandonado, dela mentir a vida inteira a respeito, da sua aparição depois de tantos anos... (mexe os ombros)... Enfim, tudo que puder me contar a respeito de passado de vocês.

Márcia (dando dois tapinhas no sofá): Senta aqui...

 

Helen senta ao seu lado.

 

Márcia: Vou contar tudo, sem economizar uma palavra sequer. Por mais que isso me condene, estou disposta a revelar toda a verdade a você, sem mais segredos.

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Um campo aberto – Noite.

 

Música: Aerosmith - Dude Looks Like A Lady

 

A câmera passeia mostrando um palhaço fazendo malabarismo com dois tacos em chamas. Em seguida segue mostrando vários jovens dançando, bebendo, alguns se beijando, outros simplesmente conversando.

 

Legenda: Montenegro – Lado Sudeste do País – Junho de 1990.

 

Uma garota dança próxima a outras duas que estão encostadas em um carro.

 

Garota (falando ao ouvido da que está ao lado): Cadê o amorzinho?

 

Garota 2 (rindo): Pensando que estou em casa, estudando.

 

Garota 1: Márcia, você não presta! (ri).

 

Márcia (sorrindo): Suellen meu amor, só se vive uma vez!

 

 

Corta para o interior de uma casa.

Um rapaz está sentado à mesa, escrevendo em um caderno, aparentemente estudando. Uma mão é colocada sobre seu ombro, quando ele olha a câmera sobe juntamente, mostrando Rosa que está de cabelos escuros, sorrindo para ele.

 

Rosa: uma pausa para um café?

 

Rapaz (sorrindo): Obrigado mãe, eu já estava terminando.

 

Rosa senta ao seu lado e fica encarando-o.

 

Rapaz: O que foi?

 

Rosa: Onde está sua acompanhante?

 

Rapaz: Minha namorada você quer dizer?

 

Rosa (dando os ombros): Que seja.

 

Rapaz (sorrindo): Essa sua implicância com a Márcia está ficando sério, sabia?

 

Rosa: Não é implicância, mas não consigo me simpatizar com essa moça, ela tem algo que não me convence...

 

Rapaz (rindo e balançando negativamente a cabeça): É paranóia da sua cabeça... (pausa)... Ciúmes de mamãe?

 

Rosa (séria): Não é ciúmes Daniel! Você já se relacionou antes, lembra?

 

Daniel: Sim, mas nunca me envolvi tanto como agora...

 

Rosa: Eu não vou saber explicar. Mas já que estamos falando nela, onde se encontra neste exato momento?

 

Daniel: Fazendo a mesma coisa que eu, estudando!

 

Corta instantaneamente para o campo. Márcia está virando um copo de bebida de uma vez, e os que estão em volta, vibram.

 

Garotas: Vai, vai, vai, vai, vai...

 

Volta para Daniel e Rosa.

 

Rosa: E por que não estão estudando juntos?

 

Daniel: Seria porque os nossos cursos são diferentes?

 

Rosa: Mas cada um estudaria a sua matéria...

 

Daniel (rindo): Não ia dar certo, a gente ia parar a cada cinco minutos...

 

Rosa balança negativamente a cabeça, em seguida levanta.

 

Rosa: Vou fazer alguma coisa pra você comer...

 

Daniel: Sabe mãe, a Márcia é inteligente, linda...

 

Corta instantaneamente para o campo, Márcia  sorri para um rapaz que está bem próximo a ela, em seguida ambos começam a se beijar. Volta para Daniel na mesa.

 

Daniel: Fiel!... (pausa)... É tudo que eu sempre quis.

 

Rosa: Eu acho que você está alucinado demais por alguém que mal faz dois meses que está namorando...

 

Daniel (sorrindo): Mas eu posso garantir que é pra valer...

 

Close no rosto dele que parece sonhar. Rosa novamente balança a cabeça negativamente.

 

 

Campo. Márcia está encostada no mesmo carro, conversando com Suellen. 

  

Márcia: Nossa, eu to tonta...

 

Suellen (rindo): Você está bêbada... (pausa)... Quer que eu te leve para casa?

 

Um rapaz olha sorrindo para Márcia, ela percebe o olhar e faz o mesmo.

 

Márcia (andando): Não, eu tenho coisa melhor a fazer...

 

Suellen (sorrindo): E o Dani?

 

Márcia (virando): Você não vai me fazer sentir culpada!

 

Suellen novamente sorri, em seguida Márcia caminha até o rapaz, a imagem sobe mostrando ambos próximos e se abraçando, fica essa cena por alguns instantes. A tela escurece.

 

 

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Campus de uma universidade – Manhã.

 

Daniel caminha sorridente, segurando a sua mochila. Sentada na escada da entrada estão Márcia e Suellen. Márcia aparenta mal estar. 

 

Márcia: Céus, que dor de cabeça...

 

Garota: Pois é? Então disfarça que seu bofe está chegando...

 

Márcia gira os olhos, Daniel se aproxima e senta ao seu lado, beijando-o o rosto dela.

 

Márcia: Ai, Dani!

 

Daniel (franzindo a testa): O que foi?

 

Daniel: Nada, só estou com dor de cabeça...

 

Suellen olha para Márcia.

 

Márcia (olhando para Daniel): Acabei abusando no estudo ontem à noite.

 

Daniel (sorrindo): Eu também....

 

Eles ficam se olhando, em seguida Suellen levanta.

 

Suellen: Bom, eu vejo vocês mais tarde! Até mais estudiosa!

 

Ela sai dando uma piscadinha para Márcia, que olha sério para ela.

 

Daniel: Então, quer almoçar lá em casa mais tarde?

 

Márcia (levantando e subindo): Eu acho que não...

 

Daniel (seguindo-a): Por quê?

 

Márcia: você sabe por quê. Sua mãe não vai com a minha cara, e eu não vou com a dela...

 

Daniel: Não diga uma bobagem dessa, minha mão te adora!

 

Ela pára e fica de frente para ele.

 

Márcia: Pouco tempo que estamos juntos e sei direitinho quando está mentindo...

 

Entra na universidade, Daniel a segue.

 

Daniel: Okay, mentindo não, talvez omitindo um pouco... (pausa)... Ouça, minha mãe só está com um pouquinho de ciúmes, é normal, afinal desde que meu pai morreu somos só nós dois, e de repente você aparece...

 

Márcia (pensativa por alguns segundos): Ta bom, mas se ela começar com aqueles interrogatórios, eu juro que será a última vez...

 

Daniel (sorrindo): Pode deixar, nada vai sair de errado.

 

Daniel abraça Márcia, e ambos saem caminhando pelo corredor, a câmera os acompanha por alguns instantes.

 

  

Casa de Daniel – Parte Interna – Cozinha.

  

Na mesa estão Daniel, Márcia e Rosa, nota-se a expressão séria de Rosa e um silêncio perturbador.

 

Daniel (quebrando o silêncio): A comida está uma delicia mãe!

 

Rosa apenas olha com o canto dos olhos.

 

Márcia: Realmente está muito bom dona Rosa!

 

Rosa: Desculpe ter pouco, é que eu preparei comida para dois, não sabia que o Daniel traria visita...

 

Márcia e Daniel se olham. Ela sobe as sobrancelhas para ele.

 

 

Corta para a sala. Márcia está sentada no sofá, assistindo televisão. A câmera se movimenta até a cozinha onde Rosa está lavando louça e Daniel secando.

 

Daniel: Poderia ser um pouco mais simpática?

 

Rosa: Fiz o melhor que pude, e não sei disfarçar...

 

Daniel: Deveria aprender, alias, deveria aprender a gostar dela...

 

Rosa: É querer demais não acha?

 

Daniel: Essa implicância que uma tem com a outra é ridículo!

 

Rosa: Ah, então o sentimento é mutuo?


Daniel (tentando consertar): Não, eu não quis dizer...

 

Rosa (cortando): Já disse!

 

Daniel a encara por alguns segundos, em seguida balança negativamente e vira, caminhando até a sala. Nota-se que a mesma está vazia.

 

Daniel (voltando para a cozinha): Legal! Acabou de espantar minha convidada!!! Muito legal mão! 

 

Daniel sai de cena, close em Rosa, que fica com uma expressão pensativa. A tela escurece.  

 

 

Abre no pátio da universidade.

 

Legenda: Agosto de 1990.

 

Márcia está sentada em banco, enquanto Daniel está sentando ao lado dela, olhando fixamente para frente.

 

Daniel: Você não pode estar falando sério...

 

Márcia: Desculpa...

 

Daniel: Terminar por quê? O que aconteceu?

 

Márcia (colocando a mão no rosto dele): Oh Dani, você é uma belezinha, mas eu não estou preparada pra isso, vejo que nossa relação está ficando muito séria, e no momento só penso no meu futuro...

 

Daniel: E seu futuro não pode ser comigo?

 

Márcia: Futuro profissional!

 

Daniel: Também!

 

Márcia: Olha, você vai encontrar alguém que te mereça, não é o fim do mundo, okay?

 

Daniel fica numa expressão completamente abatida.

 

Márcia (olhando-o com pesar): Agora eu tenho que ir...(beija o rosto dele)... Foi bom enquanto durou! A gente se vê!

 

Márcia sai deixando Daniel sozinho.  A câmera se aproxima lentamente do rosto dele.

 

Corta para Márcia caminhando pelo corredor, Suellen se aproxima e a acompanha.

 

Suellen: E então, como foi?

 

Márcia: Foi de cortar o coração...(abre um sorriso)... Mas ele é muito bobinho pra mim!!

 

Ambas começam a rir, a câmera fica parada enquanto a vemos se distanciar.

 

 

Casa de Márcia – Parte Interna.

 

Suellen está encostada a uma porta, apreensiva.

 

Suellen: E ai? O que deu?

 

Corta para dentro, é um banheiro. Temos a imagem de um espelho, Márcia levantando a cabeça e olhando sério para ele.

 

Legenda: Setembro de 1990.

 

Voz de Suellen: E então Márcia? Está me deixando louca aqui fora!

 

Márcia (nervosa): Espera Suellen!

 

Márcia olha para baixo, fica assim por alguns segundos, em seguida olha novamente para o espelho e fecha os olhos, respirando fundo.

 

Márcia: Merda!

 

Lado de fora, a porta se abre, Márcia sai.

 

Suellen: Pára de matar de curiosidade, qual foi o resultado?

 

Márcia a olha com uma expressão triste, a amiga percebendo a abraça.

 

 

Corta- Um local não especificado, parecendo mais com um terreno, com arvores, é possível ver a cidade dali.

 

Vemos também um carro parado, Daniel sentado em cima e Márcia, impaciente ,andando de um lado para o outro.

 

Daniel (espantado): Grávida?

 

Márcia (abrindo os braços): É possível uma coisa dessas?

 

Daniel: E é meu?

 

Márcia (parando e olhando para ele): E de quem mais seria?

 

Daniel (dando os ombros): Não sei, faz um mês mais ou menos que terminamos e é impossível que você não tenha saído com mais ninguém!

 

Márcia: Ta me chamando de vagabunda?

 

Daniel: Não! Claro que não! É só que...

 

Márcia (cortando): As contas batem certinho com o tempo em que estivemos juntos, e pra finalizar, tenho absoluta certeza que esse filho é seu.

 

Daniel: Tudo bem, se você está falando então acredito!

 

Márcia (colocando as mãos na cabeça): Deus! Por que isso foi acontecer?

 

Daniel: E agora?

 

Márcia: Preciso da sua ajuda...

 

Daniel: Claro! Não vou fugir da responsabilidade, vou te dar o total apoio, a criança e ...

 

Márcia: Não! Não é disso que estou me referindo. Preciso da sua ajuda para outra coisa.

 

Daniel (desconfiado): E que outra coisa seria essa?

 

Márcia: A Suellen conhece uma clínica que fica na próxima cidade, eles fazem o trabalho escondido...

 

Daniel (cortando): Espera um instante. Você está tentando me dizer que...

 

Márcia: É, isso mesmo! Não vejo outra saída se não o aborto!

 

Daniel (descendo do carro): Você só pode estar ficando louca, eu não vou deixar você tirar essa criança.

 

Márcia: Daniel, nem eu e nem você temos condições, tanto financeira , quanto psicológica para ter um filho! Imagina quando a sua querida mamãe souber?

 

Daniel fica pensativo por alguns instantes. Em fecha os olhos, bufando.

 

Daniel: E no que exatamente você precisa de mim?

 

Márcia: Dinheiro, a operação custa!

 

Daniel: Eu tenho algumas economias que ia guardar para o carro, mas..

 

Márcia: Perfeito! Junta tudo que você tiver, mais o que eu tenho e o que a Suellen vai emprestar e pronto! Resolvemos toda essa loucura!

 

Daniel fica olhando para cima, como se estivesse imaginando algo.

 

Márcia: O que foi agora?

 

Daniel: Um filho meu...

 

Márcia: Não começa a ficar sentimental agora! Já está decidido, esse feto não nasce!

 

Close no rosto de Daniel, em seguida no de Márcia. A tela escurece.

 

 

Abre mostrando o dia amanhecendo e anoitecendo várias vezes. A imagem desce mostrando a frente de um consultório clínico. Corta para dentro.

 

Márcia está sentada na sala de espera, ela parece ansiosa, do seu lado vemos várias mulheres, aparentemente esperando para fazer a mesma coisa. A câmera muda para seus pés que batem insistentemente. 

 

 

Corta para Daniel parado em frente a uma porta. Ela abre e Suellen aparece, olhando-o com desconfiança.  

 

Música: Roxette - Its Must Have Been Love

 

Suellen: Daniel?

 

Daniel (ansioso): Suellen, preciso que você me dê o endereço da clínica agora!  

 

Suellen: Pra que? Ela disse que não queria que ninguém fosse junto...

 

Daniel: Eu sei, mas preciso que você me dê o endereço...

 

Suellen fica pensativa.

 

Daniel: Por favor!

 

Suellen: Okay, mas ela vai me matar por causa disso.

 

Daniel (sorrindo): Talvez não!

 

 

 

Corta instantaneamente para uma estrada.

 

Cont- Roxette - Its Must Have Been Love

 

O carro de Daniel trafega por ele, em seguida vemos a parte de dentro. Close no velocímetro que de oitenta, sobe para cem.  

 

Consultório. Márcia ainda aparentando nervosismo continua aguardando a sua vez, nota-se que a presença de mulheres no local diminuiu.

 

Parte externa da clínica. O carro de Daniel pára em frente, é possível ouvir a freada. Ele olha para frente da mesma, em seguida sai do carro e começa a correr para dentro.

 

Parte Interna. Márcia agora sozinha, folheia uma revista. Daniel entra correndo na sala. Ela o olha surpresa, ele pára a sua frente e respira ofegante, tentando recuperar o fôlego.

 

Cont- Roxette - Its Must Have Been Love

 

Márcia: O que você faz aqui?

 

Daniel: Vim apelar!

 

Márcia (sem entender): O que?  

 

Daniel (sentando ao lado dela): Eu não posso deixar você fazer isso.

 

Márcia: Daniel, nós já conversamos...

 

Daniel: Que nós somos imaturos para ter um filho e tudo mais, okay. Mas quem está preparado para as coisas que vem pela frente?

 

Márcia fica em silêncio, apenas balançando negativamente a cabeça.

 

Daniel: Olha, eu nunca devia ter aceitado quando você disse que queria tirar essa criança. Márcia, é uma vida que está aí dentro, é nossa vida.

 

Márcia (olhando com pesar): Daniel eu...

 

Daniel (cortando): Não estou dizendo que estamos preparados, não, não estamos realmente... (pausa)... Mas temos que nos dar a chance de tentar. Imagina daqui há anos, nós lembrando do dia de hoje... Quem pode dar certeza que isso não nos matará?

 

Close no rosto de Márcia. Daniel levanta e ajoelha-se na sua frente.

 

Daniel: Eu estive refletindo hoje, e pensei, mesmo sem programar, sem esperar, eu me imaginei com meu filho, brincando, levando ao colégio, jogando bola, bom, isso se for homem... (sorri)... Mas se for mulher, o que impediria de fazer as mesmas coisas? Márcia, eu te imploro, releve essa decisão, não mate essa criança?

 

Márcia (abaixando a cabeça): Oh, merda!

 

Daniel (levantando as sobrancelhas): Devo levar isso como um sim?

 

Márcia (olhando para ele): E a parte financeira?

 

Daniel: Eu já pensei nisso... Vou arrumar um emprego, um bom estágio, sei lá. Não precisamos largar a faculdade, posso tentar dar umas aulas também e você pode sair da casa da Suellen que é uma despesa a mais e vir morar comigo!

 

Márcia: O que? Morar com a Rosa? Nem que a vaca tussa!

 

Daniel: Não é tempo de ter orgulho Márcia... É tempo de cedermos, para o bem da nosso filho, e não vamos ficar lá por toda a vida. É só o tempo de nos estabelecermos financeiramente...

 

Márcia: Isso quando? Daqui a dez anos?

 

Daniel: Minha mãe pode implicar sim um pouco no começo, mas depois tenho certeza que vai acabar se derretendo por essa criança e tenho certeza também que um dia vocês se tornarão grandes amigas.

 

Márcia começa a rir, balançando negativamente a cabeça.

 

Daniel: Okay, corta essa última frase, mas quem pode me culpar por sonhar, huh? ... (segura na mão dela)... O que me diz?

 

Márcia fica pensativa por alguns instantes. Daniel a olha fazendo expressão de choro.

 

Daniel: Por favor!

 

Nesse instante a porta do consultório se abre e ouve-se uma voz feminina.

 

Voz feminina: Márcia?

 

Márcia olha na direção da voz, Daniel para ela..

 

Márcia (olhando para cima): Eu mato a Suellen!....(olhando para ele)... Vamos dar o fora daqui!

 

Daniel (comemorando): Isso!

 

Ambos levantam rapidamente e vão em direção à saída. Corta para o lado externo da clinica. Eles caminham em direção ao carro.

 

Márcia: Quero só ver como você irá fazer para convencer a Rosa.

 

Daniel: Relaxa, eu saberei como levá-la. Ela vai acabar compreendendo...

 

Corta instantaneamente para Rosa em pé, em frente à mesa da cozinha. Sua aparência é séria.

 

Rosa (nervosa): Que pesadelo! Grávida?

 

A imagem se desloca mostrando Daniel sentado à mesa.

 

Daniel: Não é tão ruim assim...

 

Rosa (furiosa): Não é tão ruim? ... (ainda mais furiosa)... Não é tão ruim? Você recém completou vinte anos e ela, ela, quantos anos aquela menina tem?

 

Daniel: Dezenove.

 

Rosa: Duas crianças, dois cabeças ocas, irresponsáveis... (bate na mesa).... Eu estou profundamente desapontada com você Daniel, profundamente!

 

Daniel: Desculpa, mas agora está feito, o que você queria que eu fizesse? Mandasse ela tirar a criança?

 

Rosa: Não, claro que não. Mas eu disse, não disse?

 

Daniel: Disse o que?

 

Rosa: Que essa garota iria estragar sua vida! Eu te avisei que ela não prestava...

 

Daniel: Só que o erro não foi só dela, eu tenho cinqüenta por cento de parcela nisso tudo...

 

Rosa: E agora? O que vai ser?

 

Daniel: Vamos criar nosso filho juntos!

 

Rosa (andando até o outro cômodo): Eu vou ali tomar veneno e já volto!

 

Daniel (levantando e indo atrás dela): Mãe, espera um minuto...

 

Rosa pára e vira.

 

Daniel: Só que tem mais uma coisinha, pequenininha, quase que imperceptível.

 

Rosa (séria): Claro, pode falar, o que seria pior do que você ter um filho daquela lá?

 

Nesse instante a campainha toca.

 

Daniel (sorrindo forçadamente): Ela está vindo morar com a gente!

 

Rosa (nervosa): O que?

 

Ele desfaz lentamente o sorriso.

 

Corta para ele abrindo a porta e Márcia entrando com duas malas, Rosa está parada perto da escada, séria e de braços cruzados.

 

Márcia (sorrindo): Oi Rosa, obrigado por ter concordado que eu viesse pra cá...

 

Rosa (séria): Acredite, eu não concordei!

 

Rosa descruza os braços e sobe as escadas, Márcia se aproxima de Daniel.

 

Márcia (falando baixo): Você disse que ela tinha concordado...

 

Daniel: Eu sei, mas só tive coragem de contar agora... Ela não concorda, mas aceita entende?

 

Márcia (bufando): Vai ser uma temporada interessante! 

 

Daniel (sorrindo): Confie em mim, tudo vai dar certo! ... (pegando as malas dela)... Vem, vou mostrar nosso quarto.

 

Márcia: Nosso quarto? Quer dizer, nós vamos viver como um casal?

 

Daniel: E o que mais seria, agora que vamos ter um filho e criá-lo juntos?

 

Márcia fica em silêncio.

 

Daniel: Vamos esquecer aquele lance de terminar, que a gente dava tão certo juntos. Até hoje não sei por que acabou... (sorri)... Vamos?

 

Márcia (fechando os olhos e respirando fundo): Okay!

 

Daniel sorri e lhe dá um selinho, em seguida começa a subir, acompanhado por Márcia. A câmera fica parada enquanto o vemos subindo. Após alguns segundos, a tela escurece.

 

 

Abre mostrando um carro parado em frente à casa. É noite. A porta do veículo se abre e Márcia sai do mesmo. Atrás é possível ver três garotas e no volante está Suellen. 

 

Suellen: Prontinho! Em casa, sã e salva!

 

Márcia (fazendo sinal com o dedo): shhss... Vai acordar a velha!

 

Suellen (rindo): Okay, okay, até mais amiga!

 

Márcia (mandando um beijo): Até mais gente.  

  

O carro dá partida e sai. Márcia fica acompanhando com o olhar por alguns segundos, em seguida se volta para a casa e começa a andar em direção à porta.

 

Legenda: Novembro de 1990.

  

Corta para o interior da casa. O ambiente está escuro. Ouvimos o barulho da chave, em seguida a porta abrindo devagar. Quando está prestes a fechar, a luz se acende de repente, mostrando Rosa olhando seriamente para Márcia.

  

Márcia (sorriso tímido): Oi Rosa?

 

Rosa (séria): Você viu que horas são?

 

Márcia: Sabe que nem reparei? Mas se quiser me deixar informada?

 

Rosa: Duas da manhã... E não é a primeira vez que você faz isso.

 

Márcia (girando os olhos e caminhando até a sala): Pronto, vai começar o sermão!

 

Rosa (indo atrás): Não é questão de dar ou não sermão, é questão de responsabilidade. Enquanto o coitado do Daniel se desdobra em dois empregos, à tarde e a noite, você fica vagabundeando por aí. É justo uma coisa dessas?

 

Márcia (parando e olhando-a): E acha que vou deixar minha vida porque o Daniel está trabalhando? 

 

Rosa: Um pouco de respeito seria pedir muito?

 

Márcia: A sim, e você acha que eu fico fazendo o que? Traindo seu filho?

 

Rosa: Eu conheço muito bem tipinhos como você, não duvido nada do que possa fazer.

 

Márcia: Olha, eu não lhe devo satisfações, você é mãe do Daniel  e não minha mãe...

 

Rosa: Graças a Deus, porque se fosse sua mãe te daria umas boas palmadas, sua mal criada!

 

Márcia: Okay, vamos por os panos na mesa. Você não gosta de mim, eu não gosto de você... Então você cuida da sua vida, que eu cuido da minha, okay?

 

Rosa: Não enquanto você estiver morando na minha casa! Meu filho nunca chegou uma hora dessas e enquanto é sustentado por mim, me deve satisfações sim! E você deve respeito a ele e por essa criança que carrega no ventre!

 

Márcia: Criança que eu não desejei! Se o Daniel não tivesse me impedido, uma hora dessas estaríamos livres disso tudo!

 

Rosa (confusa): Espera um instante... Do que você está falando?

 

Márcia (indo em direção à escada): Nada!

 

Rosa (acompanhado-a): Não, eu quero saber. Do que meu filho te impediu?

 

Márcia começa a subir. Rosa segura em seu braço.

 

Rosa: Me responde sua vagabundinha!

 

Márcia (tirando o braço dela): Eu ia fazer um aborto, mas seu filho chegou na última hora com a brilhante proposta de criarmos a criança e morarmos juntos... Está satisfeita?

 

Rosa expressa um olhar surpreso, ao mesmo tempo em que fica pensativa. Em seguida olha para Márcia.

 

Rosa: Você é muito pior do que eu pensava...

 

Márcia: Obrigado sua velha, saiba que também a estimo muito. 

 

Ela vira e sobe a escada por completo, saindo de cena. A câmera permanece focando o rosto de Rosa, que novamente fica pensativa.

 

A imagem transparece mostrando o céu estrelado, após alguns segundos começa a amanhecer lentamente. A câmera desce mostrando a frente da casa, em seguida corta para dentro.

 

Daniel entra aparentando bastante cansaço. Ele fecha a porta e caminha até a sala. A câmera se movimenta mostrando Rosa vindo da cozinha, se aproximando dele e dando-lhe um abraço forte, apertado. Daniel franze a testa sem entender.

 

Daniel (sorrindo): Tudo isso é saudade?

 

Rosa: Isso é muito pouco para o filho maravilhoso que Deus me deu!

 

Daniel (sorrindo): Okay dona Rosa, o que aconteceu? Dias atrás você disse que estava profundamente desapontada comigo, até me chamou de irresponsável por mais de uma semana. 

 

Rosa: Não importa os erros que cometa nessa vida, sei que sempre estará tentando fazer o certo. E isso, sempre o colocará acima de qualquer critica momentânea. Eu te amo tanto meu querido.

 

Daniel (franzindo a testa): Isso tudo só porque eu me tornei um homem trabalhador? (sorri).

 

Rosa (sorrindo e segurando na mão dele): Vamos lá na cozinha, preparei um café da manhã reforçado para você.

 

Daniel (indo junto): Tudo bem, aí você me conta o que eu fiz de tão maravilho que tenha te deixado tão sentimental assim.

 

A câmera permanece parada enquanto os vemos entrando na cozinha. Após alguns segundos, a tela escurece.

 

 

Abre dentro de um quarto. Márcia está de frente para o espelho experimentando um vestido. Atrás está Daniel deitado na cama com uma expressão de cansaço.

 

Márcia (balançando negativamente a cabeça): Merda, estou ficando uma baleia!

 

Legenda: Dezembro de 1990

 

Daniel: Primeiro, você está de cinco meses, é normal a barrinha aparecer, não acha? Segundo, você devia parar com esse vocabulário chulo, a criança ouve tudo que falamos em sua volta, sabia?

 

Márcia: Ah sim, como se isso fosse influenciar no vocabulário dela...

 

Daniel: E não influencia? Meus pais nunca falaram palavrão perto de mim, e olha como eu sou...

 

Márcia: Os meus também não e olha como sou?... (sorri).

 

Daniel: Pense como quiser... Eu quero ser uma boa influência para o meu neném...

 

Márcia ignora e volta a olhar para o espelho.

 

Márcia: O que vamos fazer hoje à noite?

 

Daniel: Como assim o que vamos fazer hoje à noite, ficaremos em casa, onde mais?

 

Márcia: Fica em casa? Em pleno sábado? 

 

Daniel: Claro, é o único dia que eu tenho de folga e preciso descansar.

 

Márcia (desanimada): E eu crente que íamos sair para algum lugar, jantar fora, sei lá.

 

Daniel:  Por que você não sossega também? Afinal...

 

Márcia (cortando e falando alto): Chega de falar que estou grávida! Até parece que estou com alguma doença grave! ... (pausa)... Pois bem, se não quer sair, eu vou!

 

Daniel: Não, você não vai!

 

Márcia: Tente me impedir, você não é meu dono.

 

Daniel: Mas você é minha...

 

Márcia (cortando): Não! Não sou sua esposa! Eu nunca me casaria com um velho como você!

 

Márcia sai do quarto batendo a porta. Close no rosto de Daniel que abre a boca sem ter o que dizer.

 

 

Parte interna da casa – Sala. Percebe-se que o cômodo está cheio de enfeites natalinos. Rosa coloca um peru na mesa e sorri. A câmera corta para Márcia e Daniel sentados no sofá, ambos com aparência séria.

 

Corta para frente da casa. Márcia está sentada em um banco na varanda, pensativa. Daniel chega de leve e senta ao seu lado, olhando-a.

  

Daniel: Você está bem? No que está pensando?

 

Márcia: Na vida, em como ela mudou tanto de uns meses pra cá...

 

Daniel: Realmente...

 

Márcia: E estou criando coragem para te dizer uma coisa...

 

Daniel (preocupado): Dizer o que?

 

Márcia (silêncio por alguns instantes): Dani, você é um amor, cuida de mim como ninguém cuidaria... Mas estou voltando para a casa da Suellen.

 

Daniel: Por quê?

 

Márcia: Não está dando certo morar aqui, eu tenho me estressado mais do que ficado alegre. E também, esse tempo todo só fez comprovar que não servimos para ser um casal.

 

Daniel: Mas eu pensei, eu pensei...

 

Márcia: Vamos criá-lo juntos sim. Ele ou ela, ficará tempos na minha casa e tempos na sua. Só que não podemos mais viver juntos, como marido e mulher... (pausa)... Eu gosto de você Daniel, mas eu não te amo, não o suficiente para querer passar a minha vida inteira ao seu lado.

 

Música: Guns' N' Roses –Don’t Cry

 

Daniel abaixa a cabeça, ficando sem reação.

 

Márcia (com os brilhando): Sinto muito.

 

Márcia levanta, close na mão de Daniel segurando a mão dela.

 

Daniel: Por favor, fique!

 

Márcia (fechando e abrindo os olhos devagar): Não posso.

 

Ela tira sua mão da dele, em seguida sai. Daniel abaixa novamente a cabeça enquanto a música toma conta da cena. Ele levanta o olhar cheio de lágrimas nos mesmos. Seus lábios começam a tremer e logo ele coloca a mão no rosto, colocando-se a chorar. Lentamente a câmera começa a se afastar e abrir, focando a cena num ângulo aéreo. Após alguns segundos, a tela escurece.

 

 

Parte interna da casa. Daniel entra radiante.  

 

Daniel: Mãe!! Mãe!

 

Legenda: Fevereiro de 1991

 

Rosa aparece, preocupada.

 

Rosa: O que foi menino?

 

Daniel a beija e abraça rodando-a.

 

Rosa: Woww, woww, o que está acontecendo?

 

Daniel (feliz): Recebi uma carta do estágio que me candidatei! E eles me querem trabalhando na empresa!

 

Rosa (feliz e abraçando-o): Meu querido parabéns!

 

Daniel (radiante): Era tudo o que eu mais queria.

 

Rosa: E onde que é? Aqui?

 

Daniel: Não, na capital.

 

Rosa (desfazendo o sorriso): Mas tão longe?

 

Daniel: Sim mãe...  Mas olha, é uma ótima oportunidade, eu vou aprender muito por lá, vou ganhar um ótimo salário e se me firmar em dois, três anos, vou ter uma vida financeira consideravelmente boa!

 

Rosa: Hum...

 

Daniel: Pense no lado bom, eu vou poder dar uma vida confortável para o meu filho.

 

Rosa (subindo as sobrancelhas): É, pensando por esse lado. Claro que vou ficar triste de você ir morar longe, mas se é o melhor para o seu bebê, claro que deve aceitar... (sorri).

 

Daniel (abraçando-a): Eu tinha certeza que você compreenderia... (sorrindo)... Vamos comerar!

 

Rosa (sorrindo): Sim, vamos comemorar!

 

Daniel: Eu vou tomar um banho e já volto.

 

Daniel sobe as escadas cantarolando. A fecha na rosto expressivo de Rosa. 

 

 

Parte externa da casa. É noite e chove bastante. A câmera se aproxima da janela, cortando para dentro.

 

Legenda: Março de 1991

 

Daniel desce a escada com uma mala. Rosa está parada embaixo, visivelmente triste.

 

Daniel (descendo): Combinamos que você não ia chorar...

 

Rosa (disfarçando): Quem disse que estou chorando?

 

Daniel desce por completo.

 

Rosa: Não acredito que o meu bebê está saindo de casa...

 

Daniel: Mãe!

 

Rosa: Okay, sem choro!

 

Ele sorri para ela. Em seguida a abraça fortemente, ficando assim por alguns instantes.

 

Daniel: Eu te amo muito, muito mesmo viu?

 

Rosa: Quem combinou de não chorar?

 

Daniel (sorrindo e passando as mãos nos olhos): Desculpe.

 

Nesse instante o telefone toca. Rosa franze a testa e vai até ele, atendendo-o.

 

Rosa: Pronto? (pausa por alguns segundos)... Lamento, mas ele está de saída.

 

Daniel (curioso): Quem é?

 

Rosa: Ele está atrasado agora, liga outro dia.

 

Daniel pega o telefone de Rosa.

 

Daniel: Alô?

 

Voz de Márcia: Dani... Eu estou me sentindo muito bem.

 

Daniel (preocupado): O que você tem?

 

Márcia: A Su foi viajar e a casa está tão vazia. Não sei, estou com uma sensação estranha, com ansiedade... Não sei explicar.

 

Daniel: Espera na entrada casa que estou indo aí te buscar.

 

Daniel desliga o telefone e caminha até a porta.

 

Rosa: Você não pode estar falando sério?

 

Daniel: Eu tenho que ir mãe. A Márcia não está passando muito bem.

 

Rosa: Telefona para um médico, um farmacêutico... Você não pode ir até lá. Seu ônibus parte em meia hora.

 

Daniel: O ônibus é o que menos está me preocupando agora...

 

Ele abre a porta. Rosa segura sua mão.

 

Rosa: Por favor, não vá... Eu estou te pedindo?

 

Daniel fica pensativo por alguns instantes, em seguida fecha os olhos.

 

Daniel: Desculpa mãe, mas eu preciso ir.

 

Em câmera lenta vemos o seu rosto se aproximando no dela, seguido de um beijo demorado em sua bochecha. Rosa fecha os olhos ao receber. 

 

Daniel (sorrindo): Eu vou voltar.

 

Daniel vira e sai. A câmera se aproxima do rosto de Rosa, ela coloca a mão no local em que ele beijou. Em seguida fecha os olhos. 

 

 

Frente da casa de Márcia. Ainda chove muito. O carro de Daniel estaciona em frente. Ele sai do mesmo e vai até o portão, abrindo-o. Márcia está parada na varanda. Ele corre até ela.

 

Daniel (preocupado): Melhorou? Piorou? E a criança?

 

Márcia: Estou melhor. Mas ainda sinto uma sensação estranha, parece me sufocar.

 

Daniel (segurando na mão dela): Vamos.

 

Márcia: Pra onde nós vamos?

 

Daniel: Pra minha casa. E até que o neném nasça você não sairá de lá. E isso não é um pedido.

 

Ela hesita um pouco, mas acaba cedendo, caminhando junto com ele. 

 

 

Corta para o interior do carro já em movimento. Daniel passa a mão no vidro que parece embaçado.

 

Daniel: Que temporal foi cair, justo hoje...

 

Márcia: É bom para refrescar... (olha para ele)... Dani, acha mesmo uma boa idéia eu ficar lá? Nós já tentamos e...

 

Daniel: Eu deveria ter sido insistente... (a olha)... Márcia... Eu amo muito você e essa criança que está para nascer. Faria o impossível por vocês. (pausa) Sei que não me ama e aceito isso. Mas, se tentarmos ser uma família de verdade... Quem sabe lá na frente, seus sentimentos acabem correspondendo os meus?

 

Márcia: Mas e o seu estágio? Você não ia pra lá essa semana?

 

Daniel (sorrindo): Na verdade eu ia hoje... Mas acabo de decidir que não irei mais.

 

Márcia: Não! Não pode sacrificar o seu futuro assim...

 

Daniel: Márcia, não se sinta culpada. Que prazer eu teria em um futuro longe de vocês?

 

Márcia respira fundo, fecha os olhos e vira para o lado da janela.

 

Márcia: Eu preciso te contar uma coisa...(pausa)... Há poucos dias eu entrei em contato com uma assistente social.

 

Daniel (franzindo a testa): Pra?

 

Márcia (olhando-o): Eu vou dar a criança para adoção.

 

Daniel (incrédulo): O que? Enlouqueceu? Dar o nosso filho para ser adotado?

 

Márcia: Tem um casal que o quer muito ter um filho, mas não pode. Eles são ricos, e tenho certeza que darão uma vida melhor para essa criança.

 

Daniel (nervoso): Não! O melhor para a criança é que ela fique com os pais verdadeiros, isso sim! 

  

Márcia: É melhor pra nós também, Daniel. Somos muito jovens pra ter um filho... Eu tenho muito a amadurecer ainda e você...

 

Daniel (balançando negativamente a cabeça): Eu não vou permitir que você faça isso...

 

Márcia: A decisão já está tomada e os papeis assinados.

 

Daniel: Sem meu consentimento isso não dará em nada.

 

Márcia (nervosa): Você precisa ser tão turrão?


Daniel (olhando para ela): E você precisa ser tão sem coração?

 

Márcia: Foi pensando em nós que eu fiz isso...

 

Daniel (olhando para ela): Não! Foi pensando em você! Tudo que você faz é pensando apenas no seu bem estar!...(balança a cabeça)... Desista Márcia, eu não vou entregar minha filha para adoção.

 

Márcia : Você nem sabe que é menina.

 

Daniel: Um forte intuito me diz que sim... (olha para ela)... Agora, assunto encerrado!

 

Uma forte luz toma a frente do carro. Márcio olha para frente e arregala os olhos.  

 

Márcia: Cuidado!

 

Ouve-se uma alta buzina. Daniel olha para frente e joga a direção para o lado, desviando, em seguida fria com tudo.

 

Daniel (respirando ofegante): Você está bem?... (aliviado)... Deus, essa foi por pouco...

 

Márcia olha para ele, em seguida novamente arregala os olhos. Na lateral dele vemos uma forte luz se aproximando. A imagem corta para o lado de fora numa visão aérea. O carro é atingido violentamente por um caminhão, sendo arrastado lateralmente por alguns metros. Após alguns segundos, a câmera começa lentamente se aproximar do veículo.

 

Música: Bonnie Tyler - Total Eclipse of The Heart

 

A porta abre. Márcia sai com dificuldade, caindo ao chão da avenida. Ela está ensangüentada na cabeça e nas pernas.

 

Márcia (sentindo dor e mal conseguindo falar): Socorro... Socorro...

 

Ela olha para dentro do carro e começa a chorar. A câmera se aproxima lentamente de Daniel que está desacordado, completamente ensangüentado. Corta novamente para Márcia. Ela deita no chão e começa a tossir.

 

Márcia (com dificuldade, chorando): Socorro... Por favor, alguém me ajude...

 

Lentamente a imagem começa a subir, mostrando novamente cena numa visão aérea. É possível ver alguns carros parando próximo ao local.

 

 

Corredor de um Hospital. Em câmera lenta vemos Rosa andando apavorada. Ela olha para os lados, sem direção.

  

Cont- Bonnie Tyler - Total Eclipse of the Heart

 

Enquanto ele fala, vemos o olhar de Rosa que começa a se entristecer, até desabar a chorar. Ela abaixa devagar e senta no chão, chorando com ainda mais amargura. O médico abaixa e faz sinal para que a enfermeira se aproxime. Após alguns instantes, a tela escurece. Fica preta a imagem por alguns segundos.

 

 

Um quarto do mesmo hospital. Márcia está sentada na cama, de braços cruzados. É possível notar vários hematomas em seu corpo. Rosa entra devagar e a fica encarando. Márcia percebe a presença dela, mas não a encara.

 

Márcia: Quatro dias se passaram e não consigo olhar no rosto dela...

 

Rosa: Pelo menos deu um nome a ela?

 

Márcia: Eu e o Daniel já havíamos discutido a respeito. Se fosse menina, ele gostaria que se chamasse Helen.

 

Silêncio por alguns instantes.

 

Rosa: E o que você vai fazer agora?

 

Márcia: Nada, vou dá-la para adoção... (balança negativamente a cabeça)... Essa criança é o motivo da minha desgraça.

 

Rosa: Não. Você foi o motivo da sua desgraça.

 

Márcia a encara com os olhos cheios de lagrimas.

 

Rosa: Mas eu não vim aqui para te visitar... Vim pra te fazer um proposta.

 

Márcia: Uma proposta?

 

Rosa: Eu quero ficar com a criança.

 

Márcia (surpresa): E por que você faria isso?

 

Rosa: Apesar dela ter o seu sangue...  Mesmo antes de nascer o meu filho já a amava mais que tudo nessa vida... (abaixa o olhar)... E ela é tudo que restou dele.

 

Márcia abaixa o olhar, pensativa.

 

Rosa: Mas eu a quero não com o direito de avó. Quero com o direito legal... A posse da guarda definitiva, que você assinará...

 

Márcia (balançando positivamente a cabeça): Okay, eu aceito dá-la a você...

 

Rosa: Só que tem um detalhe. Ela será órfã de mãe também.

 

Márcia (sem entender): Como assim?

 

Rosa: Você morreu junto naquele acidente. Minha neta nunca saberá que teve uma mãe louca e vadia, que a rejeitou até o último instante... (pausa)... Terá que me prometer que nunca irá atrás dela.

 

Close no rosto de Márcia que fica pensativa.

 

Rosa: Mudaremos de estado. Viveremos longe daqui. Com a aposentadoria do meu falecido marido juntamente com a minha, não poderei dar uma vida de luxo a ela, mas necessidade nunca passará... (se aproxima)... Então, o que me diz? 

  

Márcia: Feito.

 

Rosa: Nunca irá procurá-la?

 

Márcia: Rosa, essa criança foi um erro, eu jamais quis tê-la. Pode ter certeza que nunca fará parte da minha vida.

 

Rosa (balançando positivamente a cabeça): Melhor pra ela... (pausa)... Em breve voltaremos a nos ver para assinarmos os papeis.

 

Rosa a olha com desprezo, em seguida sai. A câmera se aproxima lentamente do rosto de Márcia. Uma lágrima escorre de seu olho esquerdo. A tela escurece.

 

 

Abre dentro do mesmo quarto, precisamente mostrando a porta. Rosa entra trazendo a criança no colo. Ela pára em frente a cama de Márcia, onde a mesma está sentada e se recusando a olhar para as duas.

 

Rosa: Nós estamos indo...

 

Márcia balança a cabeça concordando, mas sem olhar para Rosa. Rosa tira uma foto do bolso e joga sobre a cama.

 

Rosa: Pra você ver o que perdeu.

 

Rosa ainda a escara por alguns instantes. Depois, vira e sai do quarto. Márcia abaixa o olhar e pega a foto, olhando para a mesma. A câmera dá um close na imagem do neném. Ela fecha os olhos e amassa a foto. 

 

 

Casa de Márcia – Parte Interna – Quarto.

 

Música: Matt White - Wait For Love

 

Márcia está sentada na cama, enquanto Suellen está ao seu lado, acariciando o seu cabelo.

 

Suellen: E agora, o que pretende fazer?

 

Márcia (fria): Continuar minha vida como se nada tivesse acontecido. Esquecer que um Daniel passou por ela, que eu tive uma... (pausa e respira fundo)... Bem, terminar o meu curso na faculdade e seguir em frente.

 

Suellen a encara com uma expressão de pena. Márcia olha para frente, mantendo a expressão fria. Ela olha para o lado. A imagem congela.

 

 

Parte interna de um apartamento. Rosa entra e carrega o bebê no colo.

 

Cont- Matt White - Wait For Love

  

Legenda:  Região Sudeste do país – Abril de 1991. 

 

Rosa sorri olhando para a criança, em seguida lhe dá um beijo demorado.

 

 

Universidade de Montenegro – Sala de aula.

 

Cont- Matt White - Wait For Love

 

Márcia está sentada escrevendo em um fichário. Segundos depois ela olha para a janela. Seus pensamentos parecem ficar distantes.

 

 

 

Parte interna de uma casa – Sala.

 

Cont- Matt White - Wait For Love

 

Rosa entra segurando na mão de Helen, que caminha com dificuldade. Elas parecem felizes juntas.

 

Legenda: Região Sul do país – Maio de 1992.   

 

 

Um campo aberto – Noite.

 

Cont- Matt White - Wait For Love

 

Márcia bebe e conversa com algumas amigas. Entre elas está Suellen.

 

Legenda: Fevereiro de 1993. 

 

Ao mesmo tempo em que aparenta estar alegre, ela pára de sorrir, ficando um pouco expressiva. Suellen a olha como se percebe do que se trata. Márcia disfarça esboçando outro sorriso.

 

 

Parte Interna de uma casa – Sala.

 

Cont- Matt White - Wait For Love

  

Rosa está sentada ao chão, dobrando algumas roupas. De repente é surpreendida pelo abraço de uma criança. Rosa sorri e a pega no colo, fazendo cócegas na mesma. 

 

Legenda: Dezembro de 1994.

 

 

 

Parte Interna de um escritório. Márcia está sentada de frente para um senhor de terno. Ele está olhando uma pasta. Depois balança a cabeça positivamente e levanta estendendo a mão para ela.

 

Cont- Matt White - Wait For Love

 

Senhor (sorrindo): Bem vinda a editora Magner!

 

Márcia (sorrindo): Muito obrigada!

 

Legenda: Paraíso – Região Sudeste do país – Maio de 1997.

 

 

 

Um carro estaciona na frente de uma casa. A janela abre e Rosa olha para fora. Em seguida Helen com aproximadamente nove anos de idade, faz o mesmo olhando para fora também.

 

Cont- Matt White - Wait For Love

 

Rosa (sorrindo): Pronto, querida... Acho que agora a gente se fixa pra sempre aqui!

 

Close no rosto da criança que sorri.

 

Legenda: Bom Destino – Região Sudeste do país – Julho de 2000.

 

A câmera se movimenta mostrando a atual casa em que elas moram hoje. Muda para um ângulo aéreo, onde vemos Helen correndo na entrada.

 

 

Parte interna de um apartamento - Quarto.

 

Cont- Matt White - Wait For Love

 

Márcia empurra com dificuldade uma cômoda, tentando movê-la de lugar. Close numa caixa que está em cima, que cai ao sentir o primeiro impacto. Márcia bufa, em seguida abaixa para pegar a mesma. A câmera a acompanha agachada por alguns instantes, em seguida ela levanta, pegando consigo uma foto amassada. Ela olha para a mesma por alguns instantes. A câmera foca, mostrando a mesma foto de Helen recém-nascida que ela amassou no hospital.

 

Legenda: Abril de 2002.

 

Ela fica observando a foto bastante pensativa. Depois abaixa a mesma e olha para frente, ainda na mesma expressão. A tela escurece.

 

 

Abre dentro de um restaurante. Márcia está sentada a uma mesa de frente para um homem. Close em sua mão arrastando a foto sobre a mesa e o homem pegando a mesma.

  

Márcia: Essa é a única foto que eu tenho... Seguindo os dados que eu te dei e da avó, acha que é possível?

 

Homem: Bom, não vai ser uma tarefa fácil. Elas podem estar em qualquer canto do país, ou até fora do mesmo.

 

Márcia: Faça de tudo para encontrá-las, não economizarei dinheiro para isso... (pausa)... Eu quero conhecer minha filha, quero ela de volta para mim. 

 

O homem balança positivamente a cabeça. Em seguida a câmera se aproxima do rosto de Márcia, fechando na expressão determinada dela. A imagem congela e um clarão é toma a tela.

 

 

Corredor de um hospital. A câmera passeia devagar pelo mesmo, até entrar no quarto onde Rosa está. Ela está deitada na cama, ainda inconsciente. Helen está numa cadeira, sentada à sua frente.

 

Legenda: Atualmente.

 

Após alguns segundos observando-a, Helen levanta e sai do quarto. Márcia está em pé no corredor, encostada na parede. Helen se aproxima dela..  

 

Márcia: Agora que já sabe tudo o que aconteceu, o que pretende fazer?

                                                   

Helen: Eu vou voltar pra casa. Ela não tem condições de viver desse jeito.

 

Márcia (receosa): E quanto a nós duas?

 

Helen: Ouça, até com ela as coisas vão demorar para voltar ao normal, mesmo sabendo todo sacrifício que fez por mim. Mas ainda assim, isso não tira sua culpa de ter mentido todos esses anos...

 

Close no rosto de Márcia. Voltando para Helen.

 

Helen: E quanto a nós... Eu acredito no seu arrependimento, acredito sim... (pausa)... Acontece que não estou preparada para ter algum tipo de relacionamento contigo agora... (mexe os ombros)... Talvez um dia... Mas nesse instante, eu não posso. 

 

Os olhos de Márcia se enchem de lágrimas. Em seguida esboça um leve sorriso.

 

Márcia: Confesso que já esperava por isso. O que é vida, se a gente colher o que planta, huh?... (pausa)... Mas espero que um dia, ainda possa me perdoar por tudo. 

 

Helen (acenando levemente com a cabeça): Eu também.

 

Fecha novamente no rosto de Márcia. A cena muda para dentro do quarto em que Rosa está. Rosa está sentada na cama, enquanto Márcia está parada à sua frente, sorrindo.

  

Márcia: Que susto você deu em todas nós, hein velha? Mas eu já devia saber que vazo ruim não quebra mesmo. (sorri).

 

Rosa: Pois é, como diz o ditado: “ Há males que vem para o bem”... (pausa)... Ela me disse que você contou toda a história a ela.

 

Márcia (suspirando): É, finalmente ela quis ouvir... (sorrindo levemente)... Pelo menos tira seu papel de vilã e entrega a quem sempre mereceu... (pausa e sobe as sobrancelhas)... Eu.

 

Rosa (triste): Eu ainda sinto aquele último beijo que ele me deu antes de sair naquela noite... (coloca a mão no rosto)... É como se estivesse recebido recentemente.

 

Márcia: Eu nunca mereci ter alguém como o Dani na minha vida... É uma pena que eu tenha surgido na vida de vocês, principalmente para desgraçá-las.

 

Rosa: Em parte sim, mas você me deu um grande presente que é essa neta maravilhosa. Ela foi o motivo de eu querer continuar vivendo... (pausa)... Devolveu-me a vida depois que ele se foi. 

 

Márcia sorri de leve para ela. Rosa a olha por alguns instantes.

 

Rosa: E agora, como a ficou a situação entre vocês duas? 

 

Márcia: Ela não está preparada para me ter por perto e eu não quero forçar mais... (respira fundo)... Vou voltar para Paraíso... Vim apenas para me despedir.

 

Márcia estende a mão para Rosa, que segura a mão dela. Em seguida ambas se abraçam.

 

Márcia (fechando os olhos): Se cuida sua velha rabugenta!

 

Rosa (sorrindo): E você, vê se cria um pouco de juízo nessa cabecinha!

 

Márcia sorri. Após alguns instantes, vira-se para sair.

 

Rosa: Márcia.

 

Márcia vira, olhando-a.

 

Rosa: Depois de todos esses anos, chega de guardar mágoas, quero que saiba que eu te perdôo...

 

Márcia (sorrindo e com os olhos cheios de lágrimas): Obrigado, não sabe o quanto isso significa para mim.

 

Rosa: Minha casa estará aberta sempre que quiser vir pra cá, okay?

 

Márcia: A Helen tem meu telefone, quando ela quiser, pode me chamar que eu venho correndo... (pausa por alguns instantes)... Adeus, Rosa. 

  

Rosa: Vai com Deus, Márcia.

 

Márcia sai do quarto, a câmera começa a se aproximar lentamente do rosto de Rosa. Ela coloca novamente a mão no local do último beijo de Daniel. Em seguida, fecha os olhos.

  

 

Vista aérea de Bom Destino – Noite.

 

Música: Creed – Don’t Stop Dancing

 

A câmera desce mostrando Rosa e Helen saindo de um taxi que está estacionado em frente a casa delas.

Helen ajuda Rosa a caminhar, dirigindo-se ao portão.

 

A imagem se afasta, mostrando Márcia dentro de um carro, próximo dali. Ela observa ambas entrando dentro de casa. Depois que a porta é fechada, ela fecha os olhos e liga o automóvel, saindo com o mesmo.

 

 

Parte Interna da casa – Sala.

 

Cont- Creed – Don’t Stop Dancing

 

Helen está parada no meio da sala. Ela fecha os olhos e respira fundo, sorrindo ao mesmo tempo. A câmera movimenta, mostrando Rosa sentada na poltrona, sorrindo para ela. Helen a olha e vai até ela, ajoelhando-se à sua frente e dando-lhe um abraço demorado. Rosa fecha os olhos, feliz.

 

 

Parte Interna do carro.

 

Cont- Creed – Don’t Stop Dancing

 

Márcia dirige com os olhos cheios de lágrimas. Ela olha para o lado e abre o parta luvas, tirando de dentro o mesma foto de Helen recém nascida, beijando em seguida. Ela afasta a foto dos lábios e começa chorar alto. A câmera começa a se afastar, saindo do carro e mostrando o movimento do mesmo num ângulo aéreo. Foca o automóvel trafegando a ponte que indica a saída da cidade.

 

Após alguns segundos, a tela escurece lentamente.

 

 

 

 

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Créditos Finais:

 

 

Criado e Escrito por:

 

Thiago Monteiro

 

Participações Especiais:

 

Heather Tom - Márcia

Brittany Snow - Márcia Jovem

Elijah Wood - Daniel

Keisha Buchanan - Suellen

 

Música Tema:

 

Switchfoot - Meant To Live

 

Trilha Sonora:

 

Aerosmith - Dude Looks Like A Lady

Roxette - Its Must Have Been Love

Guns' N' Roses –Don’t Cry

Bonnie Tyler - Total Eclipse of The Heart

Matt White - Wait For Love

Creed – Don’t Stop Dancing

 

 

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